Caso Master: Novas omissões, concorrência e prisão do pai põem em xeque delação premiada de Vorcaro
Por Sarah Teófilo e Eduardo Gonçalves — O Globo Brasília
Daniel Vorcaro, dono do banco Master — Foto: Ana Paula Paiva/Valor
Dois meses após firmar termo de confidencialidade para negociar um acordo de delação premiada, o banqueiro Daniel Vorcaro, do Master, enfrenta dificuldades para convencer autoridades de que está disposto a cooperar. Diante do avanço das investigações e da indicação de outros alvos de que também querem entregar o que sabem em troca de benefícios, advogados e integrantes da Polícia Federal (PF) e da Procuradoria-Geral da República (PGR) avaliam que ele está pressionado a apresentar uma nova proposta, caso queira mesmo ter um alívio da pena em caso de condenação. A primeira, entregue por sua defesa em 5 de maio, foi considerada insuficiente.
Os investigadores entendem que o material extraído dos celulares do próprio Vorcaro, de seu cunhado Fabiano Zettel e do ex-operador Phillipi Mourão, o Sicário, tem muito mais elementos do que os relatos apresentados no rascunho de delação até agora. Vorcaro não citou, por exemplo, a suposta mesada paga ao senador Ciro Nogueira (PP-PI), em valores que chegavam a R$ 500 mil, como mostrou a colunista Malu Gaspar, do GLOBO.
Vantagens indevidas
A investigação mostrou uma relação de proximidade do banqueiro com o parlamentar, apontado pela PF como “destinatário central” de favores financeiros pagos pelo dono do Master. A lista inclui uso de um imóvel em São Paulo e o custeio de viagens internacionais, como hospedagens, restaurantes e voos privados. Procurada, a defesa do executivo afirmou que não iria comentar. Em nota, a defesa de Ciro afirmou que “repudia qualquer ilação de ilicitude sobre suas condutas, especialmente em sua atuação parlamentar”.
Outro fato que ficou de fora, como mostrou a colunista Míriam Leitão, foram as cobranças feitas pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, para financiar um filme biográfico sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, cujo valor total poderia chegar a R$ 124 milhões. O site Intercept Brasil revelou trocas de mensagens do parlamentar combinando encontros com o banqueiro. O filho do ex-presidente admitiu as conversas, mas nega que representem irregularidades.
Tanto os favores a Ciro Nogueira quanto a relação com Flávio foram revelados em momentos posteriores à apresentação da primeira proposta pela defesa do banqueiro. Para investigadores, conforme o tempo passa e as investigações avançam, mais difícil será para Vorcaro conseguir um desfecho favorável.
Um acordo de colaboração premiada é um meio de obtenção de provas e prevê, entre outros pontos, a confissão de crimes e o pagamento de multa. Em troca, o investigado obtém benefícios, como redução de pena. Vorcaro havia feito dois pedidos aos investigadores para iniciar as tratativas: ser transferido do presídio federal de Brasília e a blindagem a seus familiares.
A trégua, porém, não durou muito. Após ser levado para uma cela na Superintendência da PF em Brasília enquanto negociava o acordo, em 23 de março, Vorcaro agora pode ter que voltar à penitenciária federal, onde o regime é mais rígido. Um pedido feito pela corporação está na mesa do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, relator do caso na Corte, a quem cabe autorizar a transferência.
Em outro sinal de que um acordo está distante, a PF prendeu na semana passada Henrique Vorcaro, pai do banqueiro, suspeito de ser operador financeiro da “Turma”, o braço armado da suposta organização criminosa comandada pelo dono do banco Master. Segundo as investigações, Henrique também atuava como “demandante e beneficiário” do grupo suspeito de intimidar adversários de Daniel Vorcaro.
A PF aponta ainda que Vorcaro utilizou uma conta do pai para ocultar R$ 2,2 bilhões de credores e vítimas das fraudes financeiras. Procurada, a defesa de Henrique diz considerar a prisão “grave” e “desnecessária”.
Um acordo de colaboração que também envolva a família não seria novidade para a PF. Delator na ação que condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe, o tenente-coronel Mauro Cid incluiu proteção jurídica ao pai, à mulher e à filha em troca de contar o que sabia sobre a trama golpista.
Além do avanço das investigações, autoridades envolvidas nas negociações com Vorcaro citam outro fator que pressiona o banqueiro a entregar mais. Enquanto sua colaboração está parada, outros investigados também se mostraram dispostos a delatar, gerando uma corrida entre as defesas para saber quem consegue fechar um acordo primeiro. A avaliação de investigadores é que uma delação não exclui outras, mas que quem chegar depois precisará apresentar novidades.
Uma das tratativas mais avançadas é a do ex-presidente do Banco de Brasília (BRB) Paulo Henrique Costa, preso há um mês após a PF apontar suspeita de que ele negociou o recebimento de propina de R$ 146 milhões em imóveis em troca de beneficiar o Banco Master em operações financeiras fraudulentas. Pessoas a par das negociações afirmam que um acordo de confidencialidade, etapa que antecede formalmente a apresentação da colaboração premiada, deve ser assinado nesta semana. A expectativa é que os anexos da delação sejam entregues em junho.




