Azul entra com pedido de recuperação judicial nos EUA
Por Bruno Rosa — O GLOBO Rio de Janeiro
Segundo a empresa, processo vai eliminar mais de US$ 2 bilhões em dívidas. Voos e vendas de bilhetes seguem normalmente. Papéis recuaram mais de 3% na Bolsa

Avião da companhia aérea Azul — Foto: Márcia Foletto/Agência O Globo
A Azul Linhas Aéreas informou nesta quarta-feira que deu entrada no pedido de recuperação judicial nos EUA, o chamado Chapter 11. Segundo a empresa, a reestruturação prevê US$ 1,6 bilhão em financiamento e até US$ 950 milhões em novos aportes de capital. A companhia disse ainda que a recuperação judicial vai eliminar mais de US$ 2 bilhões em dívidas.
A decisão da Azul de entrar no Chapter 11 foi antecipada nesta terça-feira pelo Valor. Outras empresas brasileiras recorreram a essa ferramenta para reestruturar suas dívidas, como Latam e Gol.
A Azul ressalta que suas operações e vendas de bilhetes seguem normalmente, sem alterações para os passageiros. O programa de fidelidade também não será alterado. Benefícios e opções de resgate de pontos estão mantidos.
Em apresentação, a empresa informou, no entanto, que terá sua frota reduzida em 35%. No fim de 2024, quando transportou 30,8 milhões de passageiros, ela tinha 181 aviões.
A expectativa é que o processo de recuperação seja finalizado entre o fim deste ano ou início de 2026, de acordo com uma fonte do setor.
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Ações despencam na Bolsa
O pedido de recuperação judicial era esperado, mas teve reação negativa do mercado inicialmente. As ações chegaram a cair 12%, logo após a abertura da Bolsa no Brasil. Ao fechamento, os papéis recuaram 3,74%, a R$ 1,03.
Em Nova York, as ADRs (recibos de depósito das ações da companhia listadas no Brasil) desabaram 30% nas negociações desta manhã antes da abertura do pregão, a US$ 0,35.
De acordo com comunicado, a companhia tem o apoio dos seus parceiros estratégicos, United Airlines e American Airlines, e de seus principais credores, incluindo a AerCap, maior arrendadora de aviões para a empresa. A dívida com a AerCap representa 60% do total de leasing das aeronaves, segundo fonte do setor.
“A Azul continua a voar – hoje, amanhã e no futuro. Esses acordos (com os credores) marcam um passo significativo na transformação do nosso negócio, pois nos permitirá emergir como líderes do setor nos principais aspectos da nossa atividade”, afirmou John Rodgerson, CEO da Azul, no comunicado.
Efeito da pandemia e problemas de suprimento
A empresa vinha enfrentando dificuldades financeiras há meses. No comunicado ao mercado, Rodgerson disse que se trata de “uma reestruturação financeira voluntária com um movimento proativo para otimizar a estrutura de capital”.
Ele lembra que a empresa “foi sobrecarregada pela pandemia da Covid-19, turbulências macroeconômicas e por problemas na cadeia de suprimentos da aviação”.
Segundo uma fonte, o custo dos juros com a dívida financeira aumentou em quase dez vezes em 2024 ante 2019. Ele cita ainda o avanço do dólar frente ao real. Com isso, a situação foi se deteriorando, o que forçou a empresa a entrar com pedido de Chapter 11.
– Foi feito acordo amigável com os credores para entrar no Chapter 11 de forma a formalizar esses acordos. Não se entrou para buscar uma proteção imediata – lembrou essa fonte.
United pode elevar fatia na Azul
De acordo com o comunicado ao mercado, o financiamento de US$ 1,6 bilhão via DIP, mecanismo de aporte financeiro usado por companhias em recuperação judicial, já está acertado. Ele será usado para refinanciar algumas dívidas e prover cerca de US$ 670 milhões em liquidez ao longo do processo.
Por exemplo, o empréstimo de R$ 600 milhões feito em abril deste ano pela aérea ser[á quitado com esses novos recursos. A empresa também levantou R$ 1,66 bilhão em uma oferta de ações no mês passado, valor abaixo dos R$ 4,1 bilhões esperados.
Ao final da reestruturação, está prevista uma oferta de subscrição de ações de até US$ 650 milhões para quitar parte do empréstimo DIP. Os documentos entregues à Justiça americana também contemplam um possível investimento adicional de até US$ 300 milhões de forma combinada entre United Airlines e American Airlines.
Com isso, as duas companhias vão elevar sua fatia na companhia como sócias. Essa participação, no entanto, não está definida, pois vai depender do valor do aporte que será feito.
A United começou sua parceria com a Azul em 2014 e investiu na companhia no ano seguinte. Hoje, tem 2,08% das ações preferenciais (sem direito a voto) da empresa.
“Apoiamos a reestruturação e firmamos um novo acordo para construir uma parceria ainda mais forte”, afirmou Andrew Nocella, vice-presidente executivo e Chief Commercial Officer da United Airlines.
Novas rotas para a Europa mantidas
Uma fonte ligada ao processo de recuperação judicial da Azul classificou o momento como animador para a aviação. Esse executivo explica que a empresa aérea inicia essa nova fase com os acordos assinados e financiamento garantido, com a saída já planejada.
– A empresa vai sair desalavancada em relação ao seu cenário atual, pagando menos juros, o que libera capital para poder investir no próprio negócio – destacou essa fonte.
O plano da Azul é garantir a continuidade das operações. Por isso, está mantida a inauguração de novas rotas para a Europa em duas semanas, mesmo com a redução de frota.
Acordo com GOL segue válido, diz fonte
Segundo um executivo, segue válido o acordo de cooperação comercial entre Azul e Gol, que vai conectar as suas malhas aéreas no Brasil, por meio de um codeshare, ou seja, compartilhamento de voos. Mas ele ressaltou que agora o foco é na recuperação da Azul.
Com o pedido de recuperação judicial, porém, uma possível fusão com a Gol fica mais distante, na avaliação de interlocutores. Do ponto de vista da concorrência, interessa ao governo ter, pelo menos, três empresas operando no país.
O governo acompanha a situação de perto. De acordo com técnicos da Secretaria de Aviação Civil (SAC), ligada ao Ministério de Portos e Aeroportos, a possibilidade de recuperação judicial era esperada, após a empresa anunciar prejuízo de R$ 1,8 bilhão no primeiro trimestre de 2025.
O que é o Chapter 11?
O Chapter 11 é uma ferramenta jurídica da Lei de Falências dos EUA. Ele é acionado para suspender a execução de dívidas e permitir que a empresa proponha um plano de reestruturação financeira e operacional, de maneira que a companhia siga operante e consiga mais tempo para pagar seus credores. É um mecanismo semelhante à recuperação judicial no Brasil.
Esse processo pode ser dividido em cinco fases, conforme abaixo:
- Pedido de reestruturação: quando a empresa entra na Justiça, solicitando a proteção contra credores. Foi o que a Azul fez hoje.
- Audiência inicial: é nela em que se estabelece a estrutura legal inicial para o processo. Em geral, é quando a Justiça dá ou nega a permissão para a reorganização da companhia e de suas operações.
- Desenvolvimento do plano: quando a companhia, junto com investidores e parceiros, elabora um plano para melhorar sua saúde financeira.
- Votação do plano: o plano de reestruturação deve ser votado e aprovado pelos credores para que seja implementado. Com ele, espera-se que o nível de endividamento da empresa caia e que ela consiga fôlego, não apenas para pagar os credores como também para tocar suas operações.
- Conclusão do processo: após concluída a reorganização da empresa, ela costuma sair do Chapter 11 mais forte do ponto de vista financeiro, viabilizando continuidade e até expansão das suas atividades.





